Os dias da semana continuavam a decrescer, aproximando-se cada vez mais do dia em que Zehel iria ser testado. Deitado na sua cama com Ykarus a seu lado, o rapaz movimentava-se assaltado por um pesadelo. Os nervos da semana e da pressão do exame não o deixavam descansar pacificamente, sendo que todas as noites acordava encharcado de suor e com a respiração ofegante.
No seu pesadelo era abordado por um grupo imenso de sombras com as faces cobertas por mascaras ainda mais negras que o fundo de um poço sem fim, todos eles tentavam agarrá-lo e envolvê-lo na sua escuridão.
- Ahh! - acordava com um salto o shinobi. O suor escorria-lhe pelo corpo e os seus dedos afiados cravavam-se numa carne tenra que o abraçava.
- Foi outro pesadelo? - perguntava Ykarus com a sua voz tranquilizante enquanto afagava o cabelo ao chunnin.
- Tem sido assim todas as noites... - afirmava ele farto da situação. As costas da sua namorada tinham cicatrizes das noites anteriores.
- Nao te preocupes, tenta descansar, andas muito stressado. - falou a rapariga libertando-se dos dedos cortantes de Zehel.
- Não, anda tratar dessas feridas primeiro, depois descansamos. - e com um impulso o rapaz de kirigakure levantou-se da cama dirigindo-se à casa de banho para ir buscar o kit de primeiros socorros.
Voltaram-se a deitar após Zehel ter tratado dos cortes das costas da konoichi, ela sabia que o stress todo do chunnin se devia a este não ter avanços a entender o que fosse do chakra natural. Ele sabia que só grandes mestres nas artes shinobi conseguiam atingir os mistérios da tal energia, como é que um simples chunnin iria conseguir avançar naquele campo.
- Não sejas tu mesmo a colocar a parede à tua frente Zehel, não te limites a ti mesmo, senão não terás evolução de todo. - sussurrou a rapariga enquanto acariciava o cabelo do rapaz que caia de novo num sono sem sonhos.
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A manhã tinha-se erguido, o sol espreguiçara os seus tentáculos calorosos sob o deserto imenso, banhando-o com um calor extremo que era absorvido pelos cristais minúsculos que banhavam o chão daquele oceano de areia.
Naquele dia, Zehel iria treinar por si mesmo, Bengal teria de ir a uma reunião com o Kazekage, coisas burocráticas e políticas que Zehel não tinha grande interesse.
Começou o seu treino da mesma maneira de sempre, deslocando-se para um local totalmente rodeado de natureza e sentando-se de pernas cruzadas.
Fechou os olhos e controlou a sua respiração tentando escutar tudo o que o rodeava. Ele continuava a buscar a tal energia evasiva que só alguns percepcionavam, mas tal feito era um obstáculo muito difícil de se ultrapassar. Conseguia sentir o vento na sua face, o sol na sua pele, a areia nos seus pés, mas energia não sentia nada. "É inútil..." pensava decepcionado com a sua busca. Por muito que tentasse não estava a conseguir encontrar algo.
Abrindo os olhos encarou o chão amarelado que se alongava à sua frente meditando nas palavras do seu treinador.
- "Tens de entender o quê te rodeia, perceber e aceitar tudo o que está ao teu redor e deixar que te pertença, tens de conseguir absorver a energia que te envolve." - repetiu ele meditando. - Tenho de perceber o vento? O sol? A areia? Esta formiga?
As questões continuavam, o chunnin indagava-se como um velho filósofo que procurava encontrar o significado à muito perdido para uma questão que nunca existira.
- O que faço eu... - sussurrou ele desapontado.
- Estás a pensar demais. - falou uma voz conhecida.
- Explica-me como se pensa menos então... - reclamou o chunnin com Guilly.
O homem suspirou claramente aborrecido pelo mood tão negativo do rapaz. Sentando-se ao seu lado continuou a dar-lhe conselhos e em conjunto com ele tentou meditar. Zehel sabia que por muito que o homem tentasse não ia conseguir meditar, ele não o sabia fazer, a sua respiração continuava acelerada mas Zehel apreciou a tentativa do homem bronzeado.
- Não tem a ver com tu perceberes, se tentares perceber não consegues meditar, irão aparecer mais dúvidas irá sempre haver algo mais. - falou ele deixando o resto da explicação no ar para ver se o shinobi lá chegava.
O rapaz ficara algo iluminado com as palavras de Guilly, o brutamontes não sabia sequer meditar e tinha conseguido chegar à resposta do controlo, como é que ele não conseguiria também. Só havia uma coisa que os diferia um do outro.
- O problema é eu tentar perceber não é, quanto mais tento perceber menos entendo... - parando um pouco começou então a interligar tudo o que tinha acontecido. - ...por não entender começo a stressar, começo a ficar nervoso e a ter pesadelos. Por tentar perceber não consigo aceitar aquilo que o selo me dá e tento contrariá-lo. Se eu batalhar contra ele não vou chegar a sitio nenhum.
- Força nisso então. Mostra-me a tua evolução. - pediu Guilly.
Fechando os olhos e concentrando-se no selo, Zehel fez com que as marcas tribais se espalhassem por todo o seu corpo e pela primeira vez sentiu uma resistência quase nula, não tinha de fazer força para conter a evolução do selo. Naturalmente as marcas iam percorrendo o seu corpo e ele precisava apenas de limpar a sua mente e deixar o seu poder evoluir.
Controlando a respiração, abriu os olhos devagar mantendo a sua mente calma. Sentia um pouco de comichão enquanto as marcas evoluíam na sua pele mas não lhe doía quando estas se propagavam por todo o corpo. Com um brilho intenso, o selo começou a expandir-se de modo a cobrir a pele do rapaz totalmente, começando no seu braço direito. Deixando a sua mente vaguear, Zehel começou a sentir algo estranho, sentia como se um vento gelado lhe entrasse pela parte negra que cobria a sua pele. Mantendo-se calmo deixou que a marca se espalhasse.
- Isso estás a ir bem, não te preocupes com o que está a acontecer. - falava com calma o treinador corporal de Zehel.
Conseguindo libertar o nivel dois até metade do tronco, Zehel conseguia sentir que algo lhe entrava para dentro do corpo, provocando-lhe um frio extremo e uma dor nos músculos. O seu corpo começava a sofrer a mutação do selo e o rapaz entrava de novo na batalha com a sua mente em dor. Mantendo a respiração calma, via a marca negra a expandir-se e a fazer com que a dor aumentasse, cerrando os maxilares com toda a sua força tentava resistir ao impulso se contrariar o que acontecia. Soltando a respiração sentia as marcas a cobrirem a sua cara e os seus caninos a alongarem-se, esticando a gengiva dando-lhe uma forte dor de cabeça.
- Muito bem, já está toda. - falou o seu treinador batendo palmas.
O rapaz não conseguia falar nem mover-se muito pois lutava para se manter consciente e não perder a cabeça de novo. Mantendo a respiração controlada, sentia todos os seus poros a abrirem-se e a dor a invadir o seu corpo de novo. Contendo o impulso de se contorcer com a dor soltou um urro enquanto se deixava pousar no chão para limitar o seu movimento.
- Respira calmamente. A sensação tira-te o fôlego, não sejas enganado a perder o controlo da respiração. Vamos tentar retrair de novo o selo sim? - falou Guilly na sua voz mais calma e tranquila, recebendo do rapaz um abanar de cabeça muito retraído.
Concentrando-se na sensação que lhe invadia o corpo, a sensação de algo a entrar nele, focou-se em cortar o fluxo de chakra começando numa ponta do corpo e acabando noutra. Muito lentamente o selo amaldiçoado revelava de novo a tonalidade branca da pele do chunnin.
- Bem, já não foi mau, agora tens de te ambientar a estar no segundo estado do selo.
- Essa é a parte complicada. - respondeu Zehel ofegante.