O círculo estava fechado. O jovem estava amarrado. Inconsciente. O lugar era escuro e continha muitas escrituras irreconhecíveis gravados nas paredes de pedra úmida. Não era espaçosa, mas no local, uma grande mesa redonda de pedra se destacava na escuridão sendo iluminada por grossas velas negras. Um silvo longo e agudo ecoou nos quatro cantos escuros, onde quatro pessoas encapuzadas recitavam cânticos e, diante a uma grande estátua de serpente, uma cobra branca de olhos vermelhos olha fixamente para o garoto amarrado sob a mesa. O palco estava armado. Ao lado da mesa, um pote de vidro com líquido límpido do qual gotas eram levadas por um fino tubo e borracha flexível até o seu braço esquerdo. Levava alguma substância até a veia do garoto. Havia também uma bandeja, alguns rolos de bandanas e alguns instrumentos de metal prateado. Estavam cobertos por um lenço de cor negra com alguns hieróglifos estranhos escritos em dourado.
- Essstamosss prontosssss? - Perguntou a cobra.
- Sim, matriarca. O garoto está dormindo. - Respondeu uma voz masculina escondida por tras do capuz.
A cobra então começou a mudar. Sua calda bifurcou e tomou forma de pernas, enquanto do seu corpo, protuberâncias cresceram e formaram braços. Permanecia sinuosa mais agora tornara-se humanóide. E quando terminou, a cobra andou cambaleante até o garoto que parecia tremer de frio. Elevando as mãos até acima da cabeça, ela diz algumas palavras e então suas mãos são preenchidas com duas auras: na direita, uma aura escura, enquanto na esquerda um brilho azulado. Todos os quatro envolvidos, ao verem o brilho as mãos da matriarca se calam. A cirurgia iria começar. Levando a mão até o pescoço da criança, sua mão atravessa a pele e ossos como se não tivesse matéria. Intangível. E à medida que balançava suavemente sua mão por entre as juntas dos ossos. Eles estalavam num soneto surdo, dentro da pele.
Ás vezes, algum osso saltava de sua posição criando uma protuberância na pele chegando a perfurá-la, sangrando. Logo, a cobra mais uma vez passava a mão esquerda sobre o corte aberto, fechando-o, mas deixando cicatriz esverdeada. Então, ao passar a mão direita no caixa torácica, o menino arqueou-se com um grito de dor. Percebia que ainda estava sonolento, mas ao sentir suas costelas deslocando-se deve ter sido muito doloroso. Todos os quatro espantaram-se deixando escapar um grande suspiro. Para a quantidade de morfina injetadas em seu braço, ele não teria problema com dores. Testemunhado isso, parecia que a cobra não se importava com a dor imposta, continuou até a região da pélvis, enquanto os quatro que saíam de seu lugar em velocidade para segurá-lo. Um deles pôs uma tala entre seus dentes enquanto seguravam com toda a força.
Como passar do tempo, a pele do menino começava a ficar negra, hematomas em suas juntas, precisamente nas articulações, apareciam numa intensidade muito grande. Ás vezes, ao se debater, os ossos saltavam de suas posições anatomicamente normais, criando um espetáculo grotesco de dor, suor e sangue. A matriarca deixou a pélvis e se dirigiu até os membros inferiores, onde a dor parecia ser menor, pois o garoto parou de se debater. Ou então havia perdido a consciência outra vez. Os quatro que o seguravam, ao sentir isso, deixaram-no, retornando aos cantos e recomeçando os cânticos. E assim a matriarca continuou. Sem dizer uma palavra, apenas levando sua lingua bifurcada até as narinas à medida que respirava, ela passou pelos joelhos que estalaram virando noventa graus do lago oposto ao normal e então amolecendo.
Prosseguindo, dirigiu-se até os pés, onde todas as falanges quebraram e os dedos descreviam uma trajetória randômica e quebradiça, até amolecerem novamente. O garoto tremia, ofegava e suava exageradamente. Mesmo inconsciente, os quatro sabiam que o menino sonhará com essa dor para sempre. Sabiam, pois já haviam passado por isso em suas juventudes, uns mais recentes que outros, mas sabiam. Entreolhavam-se ao ver que a reação ao ritual foi tão forte que eles tiveram certeza de que o menino não teria chance de sobrevivência para assinar o contrato de servidão. E isso era preocupante, pois seu aniversário de quatorze anos, como um eclipse inevitável, se aproximava a cada minuto. Então todos eles voltaram sua atenção à cobra.
- Nan no Kaizo "ssss" terminado. - Disse a cobra ao iniciar sua transformação à forma original. E continuou: - Ele "ssss" ainda não esssstá pronto. Há uma resisssstência nele da qual nunca vi "sssss". Ele tem medo. Cuidem disssssso. Ou então, quando a hora chegar "sssss". Ele morrerá.
Ouvindo isso, os quatro espectadores acenam a cabeça e se ajoelham em respeito. A matriarca, já em sua forma original, acena de volta e enrola-se. Sua cabeça aparece entre os gomos de seu corpo e numa fumaça ela some, retornando a suas funções no reino. Assim, com a partida da cobra, os quatro retiram os capuzes e se dirigem à mesa onde o menino geme. Com faixas limpas, eles enrolam cuidadosamente o garoto até que não lhe sobre qualquer parte do corpo desprotegida e o levam até seu quarto, onde aguardam a noite terminar. E nos primeiros raios de sol, acordam-no:
- Kimura, está tudo pronto. Você só precisa de um descanso. - Diz a mulher com olhar materno.
- Mãe! O que acontec... haaaaa... porque estou assim? - Grita Kimura olhando para os curativos.
- Longa história. - responde seu pai, logo à porta.
FIM